O Elo Perdido

By , 06/05/2011 2:36 PM

Há duas semanas estive em Houston para participar do ESRI PUG (Petroleum User Group). Estavam presentes representantes de mais de 100 países das maiores empresas de petróleo do mundo. Devido à um desconforto (que se confirmou) me inscrevi em praticamente todas as seções que tratavam sobre data management.

Em todas as seções o principal problema citado sobre data management é que as áreas não compartilham os dados entre si. Não importa o porte, a nacionalidade, o grau de desenvolvimento econômico, a cultura etc. Não importa se as áreas em questão são da mesma empresa e não de empresas concorrentes. Tão pouco importa se as pessoas que não compartilham estes dados são profissionais experientes, cultos, especializados e cientes do benefício que suas empresas teriam se tais dados fossem compartilhados. Nada disso importa.

Numa conversa de pub (são as melhores) com meus dois amigos, Leonardo Fernandes e Alessandro Diniz, no melhor pub de Houston, chegamos à conclusão que a questão é apenas uma instância do problema que afeta qualquer empreendimento (projeto, iniciativa, força tarefa etc.) em um organização social (empresa, cidade, projeto, país, bloco econômico, condomínio etc.):

Pessoas não colaboram de forma natural. Indivíduos não trabalham para atingir objetivos ditos comuns sem fortes incentivos, isto é, sem uma claríssima percepção, acima de qualquer dúvida, de que têm algo a ganhar com isso.

Naquele momento me lembrei imediatamente do livro “Empresas de Sucesso, Pessoas Infelizes?” de Clemente Nóbrega (o trecho acima é deste livro). Neste livro o autor parte da premissa que “há mais calor do que luz nas organizações”, que o dia-a-dia nelas é “tenso e nada saudável” e que “abafamento e frustação são a regra, o oposto é exceção”.

Acredito que a maioria (senão a totalidade) das pessoas reconhece e confirma esta premissa. Quase todas as conversas sobre trabalho que participo, independente do segmento econômico, região geográfica, etc.,  invariavelmente citam questões como: falha de comunicação, brigas pelo poder, decisões política, etc.

De forma brilhante, o autor mostra ao longo do livro que é inútil (e amador) atribuir os fracassos à natureza humana ou à organização social em questão (o tão batido “não funcionou devido à cultura da empresa!”). Discursos motivacionais são inúteis. É inútil “exortar à colaboração e mudança”.

…se essa tal “gestão de pessoas” produz efeitos tão limitados, é por ignorar a verdadeira natureza do animal humano, preferindo idealizar uma entidade fictícia, inexistente no mundo real. Inventa um anjo frágil, de índole boa, mas encarcerado por forças maiores que ele. Um anjo que faria tudo certo se não estivesse desorientado e oprimido por um “sistema” injusto e massacrante.

Não é possível fugir dos pecados que herdamos dos pré-humanos: egoísmo, ambição, ciúme, inveja, paixão, luta pelo poder, status… Isso tudo, somado a vieses cognitivos programados em nós, e contra os quais não adianta lutar, “pega pelo rabo” mesmo os mais inteligentes, nos fazendo agir de maneira tola e superficial. Ridiculamente humana.

De fato, a verdadeira falha na questão do data management, assim como, da maioria dos empreendimentos em qualquer organização social, e em especial, na área de engenharia de software, é não abordar a questão com um olhar sociotécnico.

Uma grande iniciativa no Brasil sobre este assunto na área de engenharia de software (e repositório de excelentes artigos) é a realização, desde 2005, do evento WOSES (Workshop “Um Olhar Sociotécnico sobre a Engenharia de Software”).

O WOSES propõe-se como um espaço dedicado a investigar as possibilidades e potencialidades deste olhar sociotécnico especificamente lançado sobre a Engenharia de Software (ES), em sua busca de projetar e desenvolver software de alta qualidade . Um olhar que busca apreender a ES sem fragmentá-la em “fatores ou aspectos técnicos” de um lado, e “fatores ou aspectos não-técnicos” de outro, sem fatorá-la em quaisquer outras dualidades (“fatores técnicos” versus “fatores humanos, organizacionais, éticos, políticos, sociais, etc.”) que terminem por desfigurar o “pano sem costura” que imbrica na ES o técnico e o social em um mesmo e indivisível tecido.

O que isso representa – na prática – para um Gerente de Projetos?

O uso de um framework adaptativo para Gerenciamento de Projetos é importante, é o primeiro passo, mas não garante o sucesso do projeto. A comunidade de desenvolvimento de software avançou muito com o uso de tais frameworks mas, IMHO, em sua grande maioria, ainda tem problemas em dois pontos: 1) é amadora no uso de técnicas ágeis de engenharia de software (mais sobre isso algum dia em um post); e principalmente 2) seus Gerentes de Projeto estudam e aplicam pouco as técnicas necessárias para uma atuação sociotécnica como por exemplo:

  • Negociação
  • Ética
  • Liderança
  • Argumentação
  • Tomada de Decisão
  • Facilitação
  • etc.

Nos próximos posts pretendo dar os “meus dois centavos” sobre os assuntos acima. 

3 Responses to “O Elo Perdido”

  1. Alessandro Diniz says:

    Barbeita, o post ficou ótimo! Fui lendo e me lembrando desta noite: boa bebida e boa conversa.
    Contudo, eu ainda prefiro acreditar – não sei se por ingenuidade ou estupidez mesmo, que uma política clara e coerente de gestão da informação, aliada a uma boa arquitetura de dados e óbvio, uma dose do bom e velho “chicote”, podem fazer a coisa funcionar.

    Vou dar uma olhada neste trabalho (WOSES)!

    Cheers,
    Alessandro

  2. Edir Maia says:

    Excelente post, você fala de toda realidade que sempre vivenciei nas empresas que passei ou pelos projetos que participei. Hoje iniciando um novo desafio profissional prestando serviço para uma grande empresa encontro a mesma realidade de dados não compartilhados e a falta de integração entre as divisões, gerando duplicidade de informaçoes etc.. Edir Maia

  3. Claudio says:

    É, meu caro, durante a leitura deste post me lembrei daquela opção de viver ou fazer os negócios como: “jogo de tênis” ou “peteca”:

    No primeiro, o objetivo é jogar a bola da forma mais difícil de ser rebatida. No segundo, o objetivo é jogar a peteca da forma mais fácil de ser rebatida.

    É o paradigma Ocidental do aceite passivo da nossa humana fragilidade egoísta vs o “É junto dos bão que se aprende o mió!”, de Guimarães Rosa.

    Fonte: Programa Caminhos Alternativos especial de 20 anos, rádio CBN. Esqueci o nome do barbudinho que trouxe isto…

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